Artigo: É possível acabar com a epidemia de HIV até 2030, mas há enormes desafios

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Além de manter a cascata de diagnóstico, retenção e as pessoas vivendo com HIV indetectáveis e com qualidade de vida, temos uma pedra no sapato que não dever ser esquecida: como ampliar o acesso a PrEP?  Como vencer as barreiras para essa implementação?

A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma ferramenta fundamental para a prevenção do HIV para pessoas que estão com alto risco de aquisição desse vírus, incluindo pessoas das populações-chave, e mulheres e meninas adolescentes especialmente na África, segundo o recente boletim do Unaids de 2023.

O número total de pessoas usando PrEP oral em todo o mundo aumentou de um pouco mais de 233.000, em 2019, para mais de 2,5 milhões, em 2022, com o maior aumento ocorrido na África.

Em geral, no entanto, a oferta expandida de PrEP é limitada a um pequeno número de países. As maiores lacunas estão entre pessoas de populações-chave em países de baixa e média renda, especialmente na Ásia e no Pacífico, onde quase um quarto das novas infecções por HIV ocorreram em 2022. Os números de acesso a PrEP no Brasil, apesar de terem melhorado nos últimos anos com projeto de ampliação de acesso para consultas fora do SUS, os indicadores de acesso ainda apresentam uma concentração assustadora das dispensações somente para algumas populações e ausência quase que completa de acesso em outras (pessoas trans, pretas e mulheres cis).

É vital aumentar a conscientização sobre a PrEP e normalizá-la como uma opção entre usuários em potencial, inclusive por meio de mídias sociais e programas de extensão. É importante que a gestão de saúde em nosso país estabeleça parcerias e melhore a comunicação desse assunto com campanhas nacionais que não se concentrem somente no carnaval e no dezembro vermelho. Muitas pessoas ainda não sabem que é a PrEP e para que serve.  Isso é muito ruim!

A PrEP deve ser disponibilizada em formatos mais flexíveis e convenientes (por exemplo, através de centros comunitários, clínicas e farmácias) assim removendo os custos diretos também podemos aumentar a aceitação. Uso de plataformas virtuais de atendimento, remoção do consentimento dos pais em PrEP para adolescentes e incentivar papéis maiores para organizações lideradas pela comunidade pode aumentar o uso desta poderosa ferramenta de prevenção.

Medo do estigma, baixa percepção de risco, conhecimento incompleto sobre PrEP e preocupações sobre os efeitos colaterais estão entre as razões citadas para interromper o seu uso. Em um estudo de Seattle, nos Estados Unidos da América, uma proporção substancial de gays e outros homens que fazem sexo com homens começaram e muitos pararam de usar a PrEP oral. Acessibilidade ruim, efeitos colaterais mal gerenciados e baixo risco percebido foram as principais razões citadas para parar.  Esse trabalho destaca a necessidade de opções adicionais de prevenção, incluindo PrEP injetável e anéis vaginais.

Aumentar o conhecimento e a aceitação da PrEP por meio campanhas de conscientização poderiam promover um ambiente social mais favorável para o seu uso. Os sucessos de prevenção alcançados na Austrália (estudo EPIC) têm contado com esforços conjuntos de clínicas e organizações comunitárias para aumentar a conscientização e tornar os serviços mais acessíveis e convenientes. A falta de leis discriminatórias e presença de uma equipe madura e com bons recursos e com treinamento ajuda muito.

O movimento LGBTQI+ é muito importante nesse cenário. Também é crucial compartilhar informações detalhadas sobre efeitos colaterais das pessoas que usam PrEP e oferecer estratégias para mudar do uso diário para a PrEP sob demanda. Muitos mitos relacionados com relação a problemas renais e hepáticos que não são verdadeiros afastam possíveis usuários.

A ampliação efetiva do uso de medicamentos antirretrovirais para a prevenção do HIV requer que abordagens e sistemas diferenciados centrados nas pessoas garantindo que os medicamentos possam ser tomados livremente e a tempo, sem exposição ao estigma. O desafio é enorme!

* Dr. Álvaro Furtado da Costa é infectologista do CRT.

 

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