Artigo: Desafio de ser mãe e HIV+

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Sento e nas minhas costas a anestesista vai aplicar a raquidiana, que você fica acordada mas não sente nada da cintura para baixo! – Thais, relaxa mais os ombros, fica tranquila …

Aquela sala gelada e o Rodrigo não estar lá comigo me deixam tensa …. Parece que a anestesia não pegou e vão ter que fazer novamente. Dr. Luiz, o obstetra, vem ao meu lado, passa a mão no meu ombro, segura a minha mão e me dá um abraço: – Fica calma querida, relaxa, vai dar tudo certo e em minutos você vai estar com seu bebezinho nos braços.

Era o que eu precisava naquele momento para receber novamente a anestesia. Deito, e aos poucos estranhamente não sinto mais minhas pernas. Sinto uma movimentação, um abre e fecha, estica, põe para lá e põe pra cá, que em certo momento já não sei em que posição exatamente a enfermeira as colocou: – Eu estou com a perna aberta, esticada ou retraída ?? Só por curiosidade ?? – Estão para cima Thais, as 2 … Risos!!! Finalmente o Rodrigo entra na sala e fica ao meu lado. Me dá a mão e vamos juntos nessa viagem, nesse momento. Sinto um cheiro de pele queimada, uma movimentação na minha barriga, mas não sinto dor, apenas que nitidamente estão remexendo tudo ali por baixo. – Está chegando … e é cabeludo ….

Rodrigo fica tão nervoso que a filmadora que ele levou e filmou tudinho acabou não filmando nada já que ele esqueceu de apertar o REC! Mas tudo bem, está na memória! Rodrigo diz: – Ele nasceu, e sorri !!

Não ouço choro; da cintura para cima estou atrás de um tecido azul e não vejo nada que acontece, parece que estão pesando, enrolando em algo, limpando, e os processos que nem sei quais são. E logo que ouço aquele chorinho que está com toda força do seu pequeno pulmão, mas ainda sim é bem baixinho, suave e rouco, aquele pedaço de mim, quando aquele pedaço de nós passa para o lado de cá do tecido …. ao ver seu rostinho entendo exatamente o significado do que é um momento divisor de águas na vida de alguém. Do que é a personificação da palavra e do sentido, amor …

E nós 3 juntos, novamente choramos!

Trecho do livro “5 anos comigo”

Essa foi a chegada do João meu primeiro filho, e 1 ano depois nós éramos 4 com a chegada da Olívia. Tudo normal em qualquer família se não fosse um pequeno detalhe: eu tenho o vírus do HIV há aproximadamente 8 anos. E apesar de sabermos que com todos os cuidados é possível gerar uma criança negativa, (a mãe indetectável, não amamentar, o bebê tomar uma medicação nas primeiras semanas de vida), não tem como não ressaltar que sem dúvida é um grande desafio.

Agradável, apavorante, intranquilo, terno, mas um imenso desafio. Porque além de todos os estigmas, preconceitos e medos que já assolam as pessoas que vivem com HIV, aqui eles são intensificados para além das inseguranças que a maternidade já traz: o pensar em passar algo para o bebê, o medo de algum familiar que não sabe, saber, a culpa pelos remédios, a desculpa para eles baixinho por não poder amamentar, culpa!!!

E na mesma proporção a coragem, coragem de escolher ser mãe, de exculpar o óbvio, de tomar as rédeas do nosso futuro e da nossa vida, e sermos gigantes! De sermos felizes por fazermos partes dos avanços ao longo desses anos todos que nos permitem ter dentro de nós batendo 2 corações, que nos faz resignar que não amamentar, é a nossa maior prova de amor. Por que não podemos escolher ter HIV, mas com certeza podemos decidir viver, escolher se tratar e com isso seguir. Conscientizando sobre o tema, promovendo a saúde, celebrando a vida e lembrando da única direção que podemos ir, que é em frente!!

E enquanto a gente tenta ensinar sobre a vida, são eles, nossas criaturas que nos ensinam a viver. Eles são nossos pequenos grandes milagres !Thais com o marido Rodrigo e os filhos Pedro e Olivia

* Natural de São Paulo, Thais Renovatto, 40 anos é formada em Publicidade e Propaganda, em Marketing e pós-graduada em Gestão de Negócios e em Marketing Digital. Autora do livro “5 anos Comigo”, além de palestrante, casada com o Rodrigo, mãe do João e da Olívia, DJ como hobby, embaixadora do Projeto Criança Aids, Thais luta por um mundo mais justo e livre de estigmas e preconceitos.